quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

...pouca terra, muita música...


Por razões académicas, durante estes últimos dez anos tive por várias vezes a necessidade de fazer as viagens de comboio entre Braga-Porto-Lisboa-Setúbal. Numa rápida retrospectiva, dou-me conta que acompanhei diversos processos evolutivos no nosso país que de outra forma seria impossível: assisti ao nascimento e crescimento da Expo98 e Gare do Oriente, às grandes renovações das Estações de Aveiro e Campanhã, às longas obras de modernização da linha do norte ou ainda à perda de protagonismo dos comboios Inter-Cidades em prol dos Alfa-Pendulares.
Ao longo destes anos, a portabilidade da música também sofreu uma transformação profunda que mal ou bem eu fui acompanhando. Ainda me lembro quando em 96 fazia estas viagens agarrado ao meu Walkman da Sony e um saco do Jumbo cheio de cassetes gravadas, depois durante muito tempo foi o discman e uma bolsa da Case Logic que dava para 24 CD's, e nos últimos 3 anos e meio não me meto no comboio sem a minha Creative Jukebox Zen Xtra de 30Gb (o fenómeno ipod passou-me completamente ao lado). O bichinho tem tudo o que sempre desejei, além de não ser da Apple, tem óptimo som, é de fácil utilização e a excelente capacidade de armazenamento permite-me ter para lá música que nunca mais acaba!

Quero com isto dizer que recentemente fiz pela enésima vez o trajecto Campanhã-Oriente e mais uma vez fui com os phones postos a totalidade do tempo de percurso. Para se ter uma ideia, 3h30 dá para ouvir em média 5 álbuns completos, e como o corpo e a mente estavam algo cansados, as escolhas desta vez recaíram sobre sons não muito agressivos e não muito recentes, próprios para um passeio pacato de comboio pelo nosso país! Assim sendo, por ordem de audição, esta viagem teve a seguinte banda sonora:


Tindersticks “Waiting For The Moon” (2003) :: Depois do Simple Pleasure houve uma espécie de hiato criativo só quebrado por este maravilhoso trabalho mais próximo das sonoridades do início de carreira. O violino torna a tomar o protagonismo devido, e aqui foi encontrado um excelente contraponto a Stuart Staples que é a extraordinária voz do violinista Dickon Hinchliffe. Espero que depois de terem acertado no caminho a seguir o continuem, vamos lá ver como é que sai o próximo trabalho lá para meados deste ano.



Télépopmusik “Angel Milk” (2005) :: Apesar de o ter na minha Jukebox desde que saiu, nunca o tinha ouvido como deve ser. Não é tão bom como o “Genetic World” (sempre gostei imenso deste álbum e da forma como me fez ouvir e gostar de hip-hop) mas mantém as sonoridades características do trio. Arranjos orquestrais a fazer lembrar os salões de dança dos anos 30 e ao mesmo tempo as aventuras musicais de David Lynch e Angelo Badalamenti.



Roxy Music “Stranded” (1973) :: Quando falo sobre musica com pessoas mais velhas (tipo os amigos dos meus pais) vejo que a maior parte tem como grandes referências musicais uns Pink Floyd ou uns Supertramp, um Bob Dylan ou Bruce Springsteen e por aí adiante. São cenas porreiras mas que nunca me chamaram devidamente, se tivesse a idade deles teria como grandes referências uns Velvet Underground, um David Bowie ou Scott Walker, ou então uns Roxy Music. Estes gajos eram formidáveis, ouvindo-os 30 anos depois percebe-se o porquê da grandiosidade da obra, é intemporal!



Morrissey “Vauxhall and I” (1994) :: Para mim é O ÁLBUM do homem a solo, melhor até que muitos dos trabalhos da era Smiths. Grandes músicas, soberbamente construídas e interpretadas, musicas que se lhes dermos espaço invadem a atmosfera sem licença. Isto é coisa para ouvir a alto e bom som depois de um dia de trabalho. Espero que a senhora sentada ao meu lado no comboio não tenha ficado incomodada com o meu entusiasmo aquando da sua audição!



Radiohead “Amnesiac” (2001) :: Nunca achei o “OK Computer” o álbum fenomenal apregoado por meio mundo e mais a outra metade, talvez porque para mim a verdadeira revolução tivesse sido dada um ano antes com o “In a Bar Under The Sea” dos dEUS. Diga-se também que tirando o tema “Creep” os Radiohead nunca me tinham passado regularmente pelos ouvidos até sair o “Amnesiac”. Este sim é um álbum a ter e a recordar durante os próximos 20 anos. Não é imediato, cheio de pormenores sonoros e melódicos só descobertos a partir de algumas audições, mas é por isso mesmo que encanta. Soube muito bem entrar em Lisboa ao som de “Like Spinning Plates”.



4 comentários:

Carla disse...

...viagem agradável… já ando com saudades de uma coisa assim… tirando os télépopmusik, apesar de admitir que o som deles é um hip hop muito sofisticado, eu sou dura de ouvido para qualquer hip hop e acho que vou ser sempre, por isso não adianta… quanto aos tinders acho que adoro todos os álbuns pq simplesmente adoro a voz do stuart. concordo contigo também seria da geração dos roxy music e por aí fora, até porque não sendo na realidade sou:) talvez por influência dos gostos da minha irmã sendo ela mais velha e felizmente com bom gosto que me mostrou muita coisa boa na altura certa! tou pra ver o que vai sair do novo álbum agora em 2007 dos roxy music passado 20 e tal anos;) apesar dos rumores iniciais de que este album iria ter a contribuição de Brian Eno parece que mais uma vez ele e Bryan Ferry não se entenderam porque o próprio Ferry já disse que isso não ia acontecer, apesar de até ter estado referido no site official. boa escolha do morrissey gosto mais do que quando nos smiths. quanto aos radiohead eu também passei pela fase do “ok computer” na altura o álbum rodou bastantes vezes na aparelhagem mas acho um pouco exagerada a dimensão que este álbum tomou. apesar do “in a bar under the sea” dos dEUS ter saído antes do “ok computer”, só o ouvi a seguir, se calhar se tivesse ouvido antes talvez nem tivesse rodado tanto o “ok computer”. mas também digo isso agora porque não consigo ouvir o thom yorke cansei-me da voz dele enquanto que tom barman é sempre na boa:)

Nelson disse...

És dura de ouvido para o hip-hop? Deixa lá que eu também o sou para o reggae!
É fixe quando se tem uma irmã que nos vai educando musicalmente durante o nosso processo de crescimento, nunca tive isso, mas como irmão mais velho foi o que fiz com a minha irmã.
Em relação aos Roxy Music o sentimento desta reunião é o mesmo que para os Pixies, isto é, profunda apreensão! A partir de certa altura, acho que não se deveria remexer o passado, ainda para mais se esse passado for brilhante!

Carla disse...

também concordo mas admito que estou curiosa com o que vem aí... tanto dos Pixies como dos Roxy Music:)

JAP disse...

Calculo que me situe no grupo etário dos teus pais e seus amigos mas as minhas referências musicais daquela época coincidem com as tuas.
As reuniões tardias também me costumam deixar apreensivo, mas no caso dos Pixies foi bom.
Gosto muito do blog. Parabéns.